Imprimir E-mail

VOLUME I / NÚMERO 1 (Janeiro-Junho 2010)

 alt

O DIAGNÓSTICO E O TRATAMENTO DE PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM EM QUESTÃO

THE DIAGNOSIS AND THE TREATMENT OF LEARNING PROBLEMS IN QUESTION

Lúcia Gracia Ferreira 1

 

RESENHA

Sara Paín, autora desse livro, é psicóloga clínica, psicopedagoga, e ainda doutora em filosofia e em psicologia. Desenvolve trabalhos relacionados aos problemas de aprendizagem, além de participar de projetos de formação e de pesquisa na França, no Brasil e na Argentina sobre este assunto. Diagnóstico e Tratamento dos problemas de aprendizagem, é uma obra que relata experiências do trabalho psicopedagógico. Nesta obra escrita numa linguagem clara e objetiva, a autora evidencia a necessidade de alertar-nos como quão facilmente marginalizamos aqueles que fazem algo diferente da norma. A autora é conhecida tanto na área de Psicologia como na área de Educação, não somente pelos trabalhos que desenvolvem, que contribui muito para o crescimento dessas áreas, mas também pelas suas bibliografias. Sara Paín traz nesse livro novas contribuições para área da Psicopedagogia e áreas semelhantes.

A obra tem um valor especial, mesmo tendo uma quantidade significativa de publicações voltadas para o campo da Psicopedagogia, nas quais são discutidas todo o processo de identificação e tratamento dos problemas de aprendizagem. Com extrema habilidade e competência, a autora dirige-se ao público múltiplo traçando um percurso envolvente alicerçado no caráter ideológico, teórico e de adequação técnica para a constituição do saber na área afim.

Organizada em sete capítulos, o livro inicia-se com fundamentos históricos da aprendizagem, indo ate o fornecimento de orientações práticas concernentes aos procedimentos básicos da devolução diagnostica.

No primeiro capítulo (Aprendizagem e Educação), Paín postula, inicialmente, os fundamentos teóricos do processo de aprendizagem e suas funções interdependentes, sendo que em função do caráter complexo na função educativa, à aprendizagem é vista, simultaneamente, como instância alienante e como possibilidade libertadora.

Posteriormente, a autora fala da psicopedagogia, como técnica da condução do processo psicológico da aprendizagem, que tem a finalidade, com seu exercício, de cumprimento dos fins educativos. Alem de nos alertar da importante diferença que há entre a perspectiva psicopedagogica e a estritamente pedagógica, ela diferencia o especialista em Ciências da Educação, que preocupa em construir situações de ensino que possibilitem a aprendizagem, do psicólogo, que se interessa pelos fatores que determinam o não-aprender no sujeito e pela significação que a atividade cognitiva tem para ele.

Embora, faca parte da psicopedagogia se preocupar com o fortalecimento dos processos sintético do ego e facilitação do desenvolvimento das funções cognitivas, Paín opta por uma psicopedagogia que permite ao sujeito que não aprende fazer-se cargo de sua marginalização e aprender, a apartir da mesma, transformando-se para integrar-se na sociedade, mas dentro da perspectiva da necessidade de transformá-la.

No segundo capitulo (Dimensões do processo de aprendizagem), é relatada vastidão do lugar do processo de aprendizagem, através da descrição de suas dimensões. Alem de nos fornecer a descrição dessas dimensões (biológicas, cognitiva, social), Paín relaciona o id, o ego e o superego com a aprendizagem, considerando que a mesma reúnem num só processo a educação e o pensamento, já que ambos se possibilitam, mutuamente, no cumprimento do princípio de realidade.

Duas condições marcam a análise do terceiro capitulo (Condições internas e externas de aprendizagem), onde a autora nos fala que existem dois tipos de condições para a aprendizagem: as externas, que definem o campo do estímulo, e as internas, que definem o sujeito, tanto uma quanto à outra podem ser estudadas em seu aspecto dinâmico, como processos, e em seu aspecto estrutural como sistemas. A combinatória da aprendizagem, pois determina as variáveis de sua ocorrência.

O conceito de problema de aprendizagem e o histórico dos fatores fundamentais no diagnóstico do mesmo, é foco da discussão no quarto capitulo (O problema de aprendizagem: fatores). A autora sinaliza sua posição a respeito da definição do termo aprendizagem, no âmbito de sua perturbação, isto é, a patologia do mesmo. Paín traz ate nos, através deste livro, um panorama retrospectivo-histórico dos fatores que podem desencadear um problema de aprendizagem: fatores orgânicos, chamando-nos a atenção da desestruturação da estrutura cognitiva por causa do corpo; fatores específicos, onde são enfatizados os transtornos que aparecem na linguagem; fatores psicógenos, marcada pela diferenciação dos termos inibição e sintoma; e os fatores ambientais, como as possibilidades reais que o meio oferece.

Com relação aos problemas de aprendizagem, o conceito do termo, ponto já dito pela autora, é bom deixar claro que os mesmos não podem ser considerados como “erros”, opinião de Freud, porque são perturbações produzidas durante a aquisição e não nos mecanismos de conservações é disponibilidade. Sendo, assim, com exceção das rupturas muito precisas, a significação do problema de aprendizagem não deve ser procurada com conteúdo do material sobre o qual se opera, mas, preferencialmente, sobre a operação como tal.

O quinto capítulo (Diagnóstico do problema de aprendizagem), é composto por sete momentos do diagnóstico – motivo da consulta, história vital’hora de jogo, provas psicométricas, provas projetivas, provas específicas e análise do ambiente – que procuram obter todos os dados necessários para compreender o significado, a causacao e a modalidade de perturbação que em cada caso motiva a demanda assistencial. O primeiro momento é a chave para compreensão diagnóstica do sintoma; os três momentos seguintes buscam conhecer o sujeito, tais atividades fornecem informações sobre os esquemas que organizam e integram o conhecimento num nível representativo; os dois últimos momentos tratam de desvendar quais são as partes do sujeito depositados nos objetos que aparecem como suportes da identificação, e buscam fazer a análise dos ambientes onde o paciente vive. Paín apresenta neste capitulo o tema do diagnóstico.

No capítulo seis (Diagnóstico e orientação terapêutica), a autora toca em três questões extremamente relevantes, onde a mesma apresenta “a hipótese diagnóstica”, “a devolução diagnóstica” e “o tratamento e contrato”, que buscam avaliar o peso de cada fator na ocorrência do transtorno da aprendizagem. A tarefa psicopedagógica começa, justamente aqui, na medida em que se trata de ensinar o diagnóstico, no sentido de tomar consciência da situação de providenciar sua transformação.

A autora reivindica, no quinto e sexto capítulo, um psicodiagnóstico abrangente, incluindo o viés do próprio diagnóstico, pervertido este pela ideologia do “saber” dominante, que aparecendo como saber, nada mais é do que um poder cheio de manchas e embustes. Estes capítulos contribuem muito para verificação de como, freqüentemente, a diferença de oligrofenia e oligotimia, passam em brancas nuvens perante os olhos e inteligência de muitos psicólogos, psiquiatras, pedagogos, professores, e principalmente, perante os olhos dos professores universitários.

No último capítulo (Tratamento), Paín prende-nos na espera de mais material sobre a técnica de tratamento. O tratamento psicopedagógico tem por objetivo, a desaparecimento do sintoma e a possibilidade do sujeito aprender normalmente. A autora relata que para cumprir objetivos e garantir a conservação do enquadre, é necessária a aplicação de certas técnicas (organização prévia da tarefa, graduação, auto-avaliação, historicidade, informação, indicação) que atuarão como instrumentos de transformação.

Ao meu ver, a obra aqui resenhada representa uma grande contribuição para as áreas da Psicopedagogia, da Psicologia e da Educação, sendo uma referência, pois consegue tratar de questões relacionadas a essas três áreas. Sara Paín faz a relação entre a psicanálise, a teoria piagetiana e o materialismo histórico, colaborando para as tarefas realizadas em crianças que com problemas na aprendizagem. Por isso, é importantíssima a tomada de consciência por parte dos profissionais que trabalham com a aprendizagem, no que diz respeito às dificuldades de tratamento psicopedagógico. Além do mais, é indispensável aprender com as experiências para que o outro possa crescer através delas, o que aumenta ainda mais o valor de obras como esta, que articula os saberes da psicologia e da pedagogia, possibilitando um entendimento do tratamento transformador. Lembremos que dessa articulação surgiu a psicopedagogia, e se esta existe é porque a pedagogia é falha e não dá conta da demanda.

 ________________

1 Pedagoga pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB/ Campus de Itapetinga-BA, Brasil. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

 

 

NOTA EXPLICATIVA

Por respeito aos autores que esperaram para verem os seus trabalhos, já revisados pela editoria anterior, publicados na Revista de Psicologia, esse primeiro número manterá aqueles artigos em suas normas originais da ABNT. Nesse sentido, o leitor contará com os artigos aceitos pela editoria anterior segundo as normas da ABNT e pela atual editoria pelas normas que serão adotadas em sua nova fase, nomeadamente, as normas da APA. Desde já gostaríamos de pedir pela compreensão do leitor por essa decisão que visa apenas a facilitar o processo editorial. Reafirmamos que a partir do número 2 do volume 1, todos os artigos seguirão a norma estabelecida (APA), conforme consta das instruções para os autores.

mod_vvisit_countermod_vvisit_countermod_vvisit_countermod_vvisit_countermod_vvisit_countermod_vvisit_countermod_vvisit_counter