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Índice do Artigo
DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM E RETARDO MENTAL: ESTUDO DE CASO
Introdução
Método
Procedimento
Resultado
Discussão
Conclusão
Referência Bibliográfica
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DISCUSSÃO

A análise dos testes foi somada à realidade apresentada pelos agentes estimuladores (representados, nesta instância, pela mãe e pelas professoras dos gêmeos) nas entrevistas e confrontadas entre si.

A observação das crianças em seu ambiente natural permitiu fazer anotações de campo sobre seu comportamento, visando correlacioná-las às informações colhidas com os testes e entrevistas padronizadas.

Conforme a classificação do DSM-IVTR para Retardo Mental, Carlos e Alexandre se enquadraram em todos os critérios, apresentando um funcionamento intelectual inferior à média, e limitações em diversas habilidades: comunicação, habilidades sociais/interpessoais, uso de recursos comunitários e habilidades acadêmicas. A falta de habilidades comunicativas pode predispor os comportamentos diruptivos (deteriorando seu relacionamento principalmente com seus pares) e agressivos que substituem a linguagem comunicativa (APA, 2002).

A mãe ressaltou o fato de que ambos são muito desatentos e incapazes de seguir ordens; insistiu que são impulsivos, agindo, por vezes, de maneira imprópria (principalmente, Alexandre: não controla a irritação em situações de conflito). Por outro lado, Maria referiu que ambos têm facilidade para fazer amizades e são crianças felizes. Estas últimas informações destoaram do que disse a professora de Alexandre. Lara disse que seu aluno é uma criança triste e que encontra dificuldades em estabelecer vínculos de amizade, referindo-se, até, a um comportamento de rejeição por parte das outras crianças (“os colegas só o procuram na hora da bagunça” sic). Ambas as professoras descreveram as crianças como “inquietas” e “agitadas”.

As características comportamentais e inabilidades sociais trazidas por essas observações permitem-nos a constatação de uma correlação do quadro apresentado pelos gêmeos com o que é verificado, comumente em crianças com problemas escolares, co-ocorrendo com o Retardo Mental. Segundo Smith e Strick (2001), “crianças com dificuldades de aprendizagem podem ter uma ampla variedade de problemas comportamentais”. É mais difícil para pais e professores lidarem com a inabilidade social das crianças com Retardo Mental do que com a lentidão para o aprendizado.

Dentre os recursos do ambiente familiar que a literatura sugere como facilitadores do desempenho escolar, podemos citar: o envolvimento dos pais no processo de desenvolvimento dos filhos, a interação de pais-filhos e uso da linguagem no lar, além de clima emocional positivo, práticas educativas e disciplina apropriada (Marturano, 2000). Esses recursos não foram observados em relação a Carlos e Alexandre; os gêmeos não recebem o acompanhamento da sua vida escolar de forma adequada, e parece não haver uma boa interação entre os familiares e as crianças.

No que se refere ao uso da linguagem, ela não parece se dar no grau esperado, apesar do nível de instrução parental não ser tão baixo (o pai completou o 2º grau e a mãe, o 1º). Pelaz Beci (1999) indica como causas para o atraso da linguagem, entre tantas, o nível social desfavorecido e situação gemelar. Associa-se, ainda neste caso, os baixos escores obtidos no teste de inteligência.

De acordo com o relato de Maria e das professoras, pudemos verificar que há problemas na estrutura familiar dos gêmeos: os pais estão desempregados, há muitas brigas (entre os pais e os avós maternos), sendo eles privados de atenção específica. Segundo Bee (2003), a etiologia do Retardo incorpora condições genéticas e ambientais e, em quase todos os casos, os portadores vêm de famílias com uma vida muito desorganizada ou onde existe privação emocional ou cognitiva. Famílias sob muito estresse, como é o caso da família destes gêmeos, tendem a utilizar mais a negligência ou a punição como forma de educação de filhos. Este dado só agrava ainda mais a situação destas crianças que necessitam de muito apoio para seu desenvolvimento.

A escola deve se preocupar com a formação humana e pessoal dos seus alunos (Cabanas, 2005), inclusive daqueles com necessidades especiais. Esta formação envolve a capacitação do indivíduo de realizar-se em si mesmo e participar plenamente da sua comunidade, dentro de suas limitações e capacidades. Quanto mais a escola atende alunos com dificuldades, mais importante é o seu papel de promover o desenvolvimento dos mesmos, pois, como neste caso específico, a família não se encontra em condições de ajudar seus membros, necessitando ela mesma de apoio da escola para procurar ajuda para seus filhos. Neste caso específico, as questões que levam os gêmeos a apresentarem dificuldades na escola já estavam presentes muito antes de seu ingresso.

A idéia não é diminuir os objetivos escolares, tanto formativos quanto instrucionais, mas ser flexível o suficiente para adaptá-los às necessidades de seus alunos. Justamente por eles se apresentarem com menores condições de acompanhar as atividades didáticas que a escola deve primar por qualidade, pois, provavelmente, ela será uma das poucas instituições sociais a receber e colaborar com o desenvolvimento destas crianças.

O professor se encontra em grande dificuldade: pois atender às necessidades específicas de seus alunos demanda mais tempo por aluno, que lhe é permitido ter. As classes municipais de Educação Infantil contam com 35 alunos matriculados. Carlos e Alexandre, além de não conseguirem acompanhar as atividades da classe, as atrapalham com seus comportamentos inadequados para a sala de aula. Nesta hora, a Escola de Educação Infantil não parece ser um ambiente suficientemente bom para propiciar o desenvolvimento integral dos gêmeos. Apesar do esforço de todo o corpo docente, a estrutura educacional não se mostra eficaz para receber crianças com Retardo Mental. Como um atendimento mais personalizado não costuma ocorrer, acaba não havendo uma verdadeira Inclusão Escolar: apenas um local onde o aluno que necessita de atendimento mais individualizado passa seu tempo, sem ser devidamente trabalhado nas suas capacidades e limitações. Como diria Gomes (2005), a escola acaba por relaxar os seus objetivos.

Neste estudo de caso, diagnosticamos os dois alunos como portadores de Retardo Mental. Entretanto, saber da sua patologia não significa que o professor ou os pais a compreendam (Sternberg & Grigorenko, 2003). Uma boa formação do professor e a colaboração da equipe que fez o diagnóstico é fundamental para que a criança possa ter suas possibilidades ampliadas e suas limitações trabalhadas. Por isso, inclusão é um fator motivante para o professor se aperfeiçoar e procurar novas alternativas de educação, poderão contribuir para a melhora da qualidade do ensino ministrado a todos os alunos da Educação Infantil. E para as crianças com problemas se mostra um desafio positivo para desenvolver suas habilidades sociais e cognitivas. Além dos mais, os pais podem sentir-se pressionados a tomar uma atitude que ajude seus filhos a superarem as dificuldades.

Esta é uma tarefa árdua demais para o professor cumprir sozinho. Necessita de apoio da escola e da comunidade. Faz-se necessário a colaboração de diversos seviços públicos (educacionais, sociais e de saúde), para que, juntos, possam fornecer o apoio necessário para o desenvolvimento integral da criança.



 
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